Days Gone By

Celestial Bearings

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Soundscapes

15. Um contrato para a vida

Desta vez, a preparação da partida foi feita num ritmo tranquilo, sem a pressão da maré ou das horas de chegada a cumprir. Isso não significou, porém, que o Capitão ficasse a roncar até tarde. Levantou-se com o nascer do sol e começou a ultimar os preparativos para a viagem, que já tinham sido iniciados uns dias antes. Não era para menos: uma travessia do Atlântico Norte, possivelmente durante 15 dias ou mais, com 5 pessoas a bordo, tinha de ter tudo planeado ao mais ínfimo detalhe. Quando cheguei ao cais, boa parte do trabalho já tinha sido adiado e ajudei só na conclusão das últimas tarefas. Depois, fomos aos Metralhas para o último almoço em terra das próximas semanas, e rever a lista dos preparativos, da palamenta e dos mantimentos. Passámos pelos nossos aposentos para um derradeiro duche sem balanços, uma troca de roupa e a recolha dos restantes artigos pessoais. Na caminhada de regresso ao cais, não resisti a inquirir sobre o perfil dos conselheiros políticos que teríamos de...

14. Corvo madrugador

 Uma noite a deambular por esta ilha e sente-se o seu isolamento. Não se escuta o som de ninguém a regressar de algum lado ou a escapulir para um outro sítio, nenhum ressoar mecânico noturno a espalhar-se rente ao chão, nenhum eco distante de veículos em movimento. Apenas o bater inalterável, incessante e impiedoso das ondas num cerco apertado. Ainda estou no processo de ambientação à banda sonora marinha e não conseguia dormir. O som do mar que conhecia era aquele murmurar pueril da ondulação feito pelas aplicações de smartphones para relaxar, mas a noite passada o meu quarto estava inundado pelo ressonar vibrante de um velho e gordo oceano. Saí para reduzir a tensão, distrair a mente e ver a paisagem noturna, a pensar que, se calhar, até me cruzava com alguém ou encontrava um estaminé aberto. Estava tudo fechado, mas perto do aeródromo, junto ao muro do cemitério, fui surpreendida pelo som de vozes numa conversa abafada. Ansiosa por perceber quem conversava em surdina e sobre o...

13. Sic.. et Non

«Os corações dos homens e das mulheres são movidos mais por exemplos do que por meras palavras e encontram consolo no testemunho do sofrimento daqueles que, quando comparadas as misérias de uns e outros, merecem mais a nossa compaixão. É por isso que conto sempre o trilho que me trouxe até aqui, para que quem me procura descubra a leveza das suas penas face às minhas tribulações e, dessa forma, possa enfrentar os seus obstáculos com maior facilidade». Parece tirado de um épico bíblico em technicolor, não parece? Foi com este sermão que o ermita do Corvo nos recebeu — depois de umas breves saudações protocolares, mãos apertadas com a solenidade dos que já não têm pressa e nomes trocados com aquele ar de quem não vai decorar nenhum. Chamam-lhe Abelardo. E tal como tinha anunciado, começou, sem que ninguém pedisse, a contar a história da sua queda, provavelmente relatada tantas vezes que se tornou prólogo para quem se junta ao retiro. «Não sou de cá. Nem do campo, nem do mar. Sou um...

12. Bisca sem trunfos

Não sei que espécie de feitiço sofri ou se alguém a bordo me deitou algo na comida, o certo é que dormi profundamente logo a seguir à última garfada do jantar. Acordei quando já estávamos a fazer a aproximação à ilha, a pouco mais de três milhas de distância.  Mal tinha acabado de despregar as ramelas dos olhos com a ponta dos dedos vi imediatamente que tínhamos chegado a um enorme calhau batido pelas vagas do Atlântico no meio de nenhures… Qualquer resquício de sono liquefez-se corpo abaixo ao nos aproximarmos do Porto da Casa, nome dado ao ancoradouro da ilha do Corvo, encaixado no recanto mais doméstico da ilha, aos pés da vila, mas insuficientemente resguardado para proteger uma atracagem. Aos nos aproximarmos, parecia que as vagas ignoravam o comprimento reduzido da muralha e tomavam conta de toda a costa. Imagino que em dias de maior vendaval, com as vagas a empurrarem uma embarcação, seja possível entrar pelo Porto da Casa adentro e aterrar no aeroporto, a cerca de cem metros...

11. Cem olhos esgazeados

Esta foi uma semana de nervos para o Capitão Jackdaw. Notei-lhe o desconforto no andar e no olhar — ansioso por largar amarras, mas com o vento a troçar-lhe dos planos. Uma calmaria persistente manteve-nos em terra firme, quando o que ele mais queria era rumar ao Corvo. Pelo que fui percebendo, houve uma alteração no plano de viagem. Começo a suspeitar de que há outro mapa — invisível para mim — a traçar a rota do Nómada. Estava previsto seguirmos para as Caraíbas depois dos Açores, e agora vamos para a Nova Escócia. Eu sei... da frigideira para o frigorífico. O mais estranho é que essa mudança aconteceu depois do encontro no Farol dos Capelinhos. Ao longo da semana, ouvi o Capitão em várias chamadas telefónicas discretas. Não consegui apanhar grande coisa, mas anteontem dois dos outros capitães — o Nemo e o Corto Maltese — passaram pela casa e ficaram a conversar na rua, em voz baixa, quase sussurros. O que apanhei foi pouco, mas suficiente para deixar marca: ouvi o Capitão Nemo...

10. O encontro dos capitães

Lembras-te das aventuras dos Cinco? Os Cinco no Lago Negro e os Cinco e o Comboio Fantasma eram as minhas histórias favoritas por serem mais noturnas. Pois, não vais acreditar, mas esta noite vivi uma aventura do mesmo tipo, daquelas em que alguém diz «Se aparecer alguém, faça um sinal com as luzes». Como te tinha dito, fomos para o encontro de capitães no Peter Café Sport. Trata-se de um lugar mítico para a comunidade mundial de velejadores. Começou por ser uma loja, mas depois mudou de instalações para junto do porto e um dos filhos do proprietário decidiu ampliar o espaço e criar um bar vocacionado para os homens do mar. O nome Peter era uma espécie de alcunha do filho que explorava o bar; era assim chamado por um oficial da marinha inglesa que o achava parecido com o seu filho Peter, e o nome ficou. «Aproveito para levantar o correio que tenho aqui à minha espera», disse o capitão. «O bar é um posto de correios também?» «Antes dos e-mails e das mensagens instantâneas, os...

9. Viagens do horror

Acredito que ninguém no meu lugar deixaria de pensar sobre as misteriosas companhias do Capitão Jackdaw. Primeiro o misantropo faroleiro e o extravagante capitão Ed, depois o nosso companheiro de viagem até à Horta, o aventuroso jornalista das *Voyages Extraordinaires*, e agora um futuro passageiro, o excêntrico Mr. Peu, o sócio de Verlin na agência de viagens “Grotesco e Arabesco”. «Provavelmente, iremos encontrá-lo em Boston. Deverei ter a confirmação antes de atravessarmos o Atlântico», adiantou o Capitão, enquanto dobrávamos a ponta da ilha em direcção ao porto. «A companhia de Monsieur Peu vão adorar», garantiu Verlin, com um daqueles sorrisos oblíquos que nunca se sabe se anunciam uma revelação ou uma mentira estética. A agência de viagens dos dois parceiros está especializada em fornecer serviços àqueles que, sendo podres de ricos e estando enclausurados numa existência de tédio, procuram novas e cardíacas sensações para animar o corpo e o espírito. Pelo que Verlin explicou,...

8. Falar mareado

A jornada entre Santa Maria e o Faial está a ser tranquila como um passeio de fim de semana, e até agora temos tido vento calmo ao largo de cinco nós. As condições são as ideais para todos a bordo relaxarem e conversarem. Quando digo todos a bordo, refiro-me a mim própria, ao capitão e a mais um tripulante; mas é uma personagem que vale por muitas e cuja forma peculiar de organizar o discurso dá o mesmo trabalho que tentar entender duas ou três pessoas ao mesmo. O seu nome é Jules Verlan, intrépido explorador e jornalista da revista “Voyages Extraordinaires”. Só que para explorador, enjoa muito facilmente no mar e quanto aos seus dotes como jornalista espero que os artigos tenham uma ordem discursiva com uma coesão diferente e uma coerência mais fácil de apreender. É que não conseguiu produzir um único enunciado na ordem normal de constituintes frásicos. «San Michelle, este é o nome do meu barco, com dois mastros um veleiro que olhar demoradamente dá gosto.» «E é lá que escreve todos...

7. No farol do barbalhudo

Passámos o fim de semana a recuperar da ressaca do mar. No dia seguinte à chegada ainda estava com o corpo moído, mas saímos para esticar as pernas e visitar a vila. É uma localidade aninhada em comprimento ao longo de um estreito vale com três ou quatro ruas dispostas da zona habitacional cumeeira até ao pequeno porto acoitado numa apertada enseada sob a vigilância de um antigo forte. Se largasses um berlinde à porta da primeira casa do morro iria descer direitinho para o mar sem se desviar mais do que uma dezena de metros. Do lado poente do porto sai uma estrada que liga ao aeroporto, alinhado com a costa oeste da ilha de Santa Maria. Para leste ficam meia dúzia de lugarejos, vinte ou trinta casas em cada um deles, e o farol de Gonçalo Velho, onde tínhamos encontro marcado para um jantar em casa do faroleiro, um antigo amigo do capitão Jackdaw. O farol fica isolado no topo do extremo da ponta sudeste da ilha, acessível apenas por uma estreita estrada com escadas ao centro. É um...

6. Abduções e conspirações

Prepara-te para mais uma voltinha no carrossel da fantasia… A chegada a Santa Maria não teve nada de convencional. E não foi só por termos passado uma semana de monotonia no mar, sem mais nada para ver do que ondas, em conversa com as mesmas figuras. Se estás a ler as mensagens pela ordem correta, sabes que o capitão decidiu que eu ficaria ao leme durante a aproximação ao porto. Era madrugada ainda, o céu limpo a perder rapidamente o tom azul-escuro, com as primeiras luzes do dia a tentarem passar por cima das escarpas, vindas do lado leste da ilha. O mar, depois da longa travessia, parecia estar resignado, deixado sozinho sem uma única brisa como companhia. Com o motor a funcionar – as velas tinham sido recolhidas antes, quando nos pusemos aproados ao vento para as baixar sem pressas –, eu seguia as instruções do capitão com a concentração de uma estudante aplicada no seu primeiro exame de navegação noturna. «Mais para bombordo… assim… isso, mantenha o rumo», dizia ele, com a voz...

5. Heróis e heroínas

«A navegação marítima tem tanto de científica como de adivinhação». Este foi o meu desabafo ao avistarmos as luzes de Vila do Porto e, de imediato, fui repreendida. «Tudo o que fizemos no nosso percurso poderia ser previsto se tivéssemos todos os elementos necessários para o cálculo», argumentou o Carlos Sage. Já não posso ouvir tanta objetividade científica! Eu sei, é injusto porque ele até é um tipo impecável. Acho que este azedume é porque estou cansada e se estou a escrever a esta hora, ainda no mar, é porque sei que vou dormir muitas horas e não vou ter vontade de me sentar em frente de um computador tão cedo. Vou apenas ligar-me à internet e enviar-te as mensagens escritas a bordo nesta última semana. São quatro da manhã e finalmente estamos a chegar a Santa Maria. Passámos os dois últimos dias, mais de 120 milhas, a bolinar e a bolinar, com o vento a rondar e a trocar-nos as voltas. A temperatura não esteve desagradável, mas passámos boa parte do tempo sem sol e sem lua. Um...

4. Um kit para detetar balelas

Com tanta água à volta, parece estranho dizer que a viagem tem sido uma seca nos dois últimos dias. O problema é a falta de vento... Para tentar escapar à depressão – a mesma que, aparentemente, causou pequenos tornados aí em terra –, o capitão fez rumo ao Bancos de Gorringe, a 120 milhas de Sagres. Até aí fomos a voar. Depois, apontámos à Madeira e chegámos a pensar que iríamos até parar lá um dia, mas fomos apanhados pela calmaria que vinha a apanhar o restos do reboliço deixado pela depressão… Dois dias de mar completamente liso, a imaginar a Madeira mesmo ali ao lado. «Não estamos mesmo ao pé da Madeira! Estamos a mais de 200 milhas, isso é mais do que a distância entre Lisboa e Porto.», clarificou o capitão, como se isso nos fizesse mais felizes. Felizmente, o vento voltou. Só que agora estamos a ir mais para norte para evitar outra baixa pressão que vai passar ao largo dos açores em direção à Madeira e, nesta manobra, estamos a tentar escapar a outra calmaria!... Há uma certa...

3. The Heroine’s Journey

I feel that now the adventure truly begins. Like turning the first pages of a novel, when the analytical mind weighs every sentence while quietly measuring the promise of the chapters still to come, I have spent these first days trying to understand the meaning of this peculiar undertaking. It is an emotional calculation, if such a thing exists, an attempt to build empathy with something made entirely of expectations, sensations, and carefully assembled justifications. And little wonder, considering the risks inherent in a voyage of this magnitude. My reluctance to throw myself fully into this challenge came from the fear of eventual disenchantment: the possibility that the novelty of places and of those who inhabit them might fade into a routine of gestures and conversations, into days so alike they blur into one another. As I told you, I feel that now I have finally shed the burdens that kept me at a distance from emotion. Now, the adventure truly begins. “It’s more than an...

2. At Ricky’s bar

The first week after departure, and the travel plan is already at risk of being changed. Everything went smoothly until we reached the port of Baleeira, by Cape Sagres, around lunch hour. It had been 93 peaceful miles, calm enough to allow for deep sleep. As Nómada approached the harbour, we brought her head to wind and lowered the sails. We started the engine and slowly made our way toward the pontoons, the captain at the helm and I preparing the fenders and mooring lines. Then the engine sputtered and died. We tried to restart it – once, twice, three times – nothing. The wind, which blows there with stubborn persistence, began pushing us toward the Martinhal islets. The captain cursed under his breath and, with a resolute movement, whether born of anger or calculation, he ran to the bow to drop anchor in the hope of keeping us away from the rocks. Suddenly, a jet ski appeared at high speed, coming from behind the islets, as if someone were filming a commercial. The rider, dressed...

1. A twisting around the world

There’s a kind of hesitant calm when night falls over the sea. To me, it feels like a remnant of childhood, when my parents would switch off the bedroom light and I’d lie there in the dark, watching the faint shadows made by the light slipping through the crack in the door. My heart would start racing, my senses on edge, straining to catch the slightest sound or movement in the half-light. But after some moments, it would settle again as soon as I felt convinced that the height of the bed and the weight of the blankets were enough to keep anything at bay. The sea at night is like a dark room, its vastness making you feel just how alone you really are. I don’t mean to scare you with this. I just want to convey how intense it is to be alone at the helm, surrounded by the absence of any real visual reference points. The constant motion of the waves makes it impossible to get a sense of where I am in space and, although I can hear water around me, I’ve never felt so aware of the...

Prologue 5. A Peripatetic Conversation

I’ve just got home after meeting Silva. It was as if I had returned to the crime scene. He was waiting for me at Adega dos Frades, on the ground floor of the same building of the boarding house. Doesn’t it ever feel when you go somewhere familiar as you’re returning to a dream, filled with memories gathered like dust that escapes the cleaning cloth? That’s the strange sensation I feel every time I go to the Adega. The Adega remains a place where time moves slowly. It lingers at one table over a drink, at another over the news, further along delaying itself in a game of cards, postponing departure for yet another glass and another story. The walls stand guard over photographic memories –customers from other eras lined up in toasting poses, the neighbourhood in festive processions during the Santos Populares festivities, a few pennants and their respective amateur football teams. At the counter, Manel dos Frades was serving drinks and food with a skill honed by habit, the same easy...

Prologue 4. Return from the past

Sorry for the interruption. I have more news, but I’ll tell it later. Let me finish this while it’s still clear in my head, before the details start slipping away. You’ve probably realised it already. It was a night that did not belong to this world. And the worst of it had yet to come. I was trying to understand how I had ended up in the middle of Rua dos Mareantes, some distance from the entrance to “La Bohème”, when I heard a voice behind me. It was familiar, but warped, as if it were playing back from an old tape left too long in the sun. “Look who’s here. You alright?” I turned. They were all there. My old crowd. My childhood friends. I had not seen them together in years. Not since we were teenagers. Manel dos Frades, with those dark hollows under his eyes carved deep into his face by too many hours of work. Mac, soaked in perfume, the smell clinging to him like a shield against something he could not wash away. Barão, pale and thin, carrying himself like a fallen aristocrat...

Prologue 3. Submerged Mariners

Sorry for the interruption again, it was the building manager. He came to deliver the building regulations, a dense document filled with minor precepts. Only the typical fondness for formalities, so often displayed by those in minor positions of authority, can explain his insistence on handing me a printed copy in person, accompanied by long-winded platitudes. I am considering leaving the city and will need a responsible tenant to look after the flat for an extended period. All of this seems rather sudden, perhaps even a little manic, but the reasons for my unease are tied to the story I am trying to tell you faithfully. As you might suspect, I ended up going with the French couple to “La Bohème”. I cannot quite explain why. On the one hand, I wanted to get away before Ms Lortz or someone from the library spotted me. On the other, I felt that peculiar fascination that free spirits exert over souls weary of routine. Or perhaps it was simply the hope of hearing live jazz. As my...

Prologue 2. Contingencies on the Terrace

Sorry for the interruption, it was a call from my boss. She says she wants to speak to me in person, probably to fire me. The thing is, yesterday, after she sent me that message, I really did end up not sending her the work. I’ll explain, let me try to pick up the thread again. After giving getting fine, I stayed there, rooted in front of the library, the ticket in my hand, thinking about what had just happened. That whole business with the apologies kept nagging at me, like an itch at the back of my mind. What kind of theatrical trio were they, to take offence so readily, as though I had stumbled into some old tale where only a duel could settle matters? And who exactly was Ms Lortz, the new librarian? “Is it possible for a character to step off the page and be turned into flesh and blood… and who knows what else?”, I wondered. That was when I realised, in sheer horror, that I had slung over my shoulder, in my linen tote, the books I had taken from the shelves to borrow. If those...

Prologue 1. Halfway Through the Beginning

Have you ever tried to tell someone about something that happened to you, only to realise you have to go much further back just to make sense of it? That’s why I’m asking for your patience as you read this email, this long account. The past 24 hours have been so surreal that I still wonder whether it was all just a dream. Do you remember Professor Ribeiro’s classes? The ones where he served us mythology at eight in the morning as if it were hot toast? The story of Theseus, the Minotaur, and the ball of thread that saved the hero’s life? We laughed when Calhotas said it was rather naïve that no one had brought a GPS, just another of his anachronistic remarks that would derail the lesson. Then Professor Ribeiro explained that following the thread meant retracing the path, but also following the narrative that gives meaning to the hero’s journey. I don’t know why, but that stayed with me. Perhaps because it explained something too simple to be obvious: we tell stories so we don’t get...

Termos e Condições