Jul 7, 2026

31. O talismã no mastro

Passámos o dia de ontem num molengo descanso. A noite anterior tinha sido longa – ficámos a ver o concerto de música ao vivo até ao fim – e como a seguir era domingo ninguém estava disponível para ajudar o capitão a fazer a manutenção do Nómada; por isso folgámos o dia. Vimos outros barcos saírem de manhã para um passeio domingueiro e, já depois do almoço, as tripulações a regressarem, ao longo da tarde, revigorados. O capitão andou pelo pontão, em conversa com os navegantes locais, e quando regressou, sentou-se na consola de navegação a tomar notas num dos seus livros de capa preta. Jantámos recolhidos cada um em si mesmo, o capitão a rabiscar nos seus cadernos, eu a tentar ler enquanto comia.

Hoje de manhã cedo, saí com uma lista de mantimentos na mão e um casaco que percebi ser demasiado fino para o clima húmido matinal da Nova Escócia, apesar de o vento soprar com uma estranha parcimónia. O céu mantinha-se suspenso num cinzento mineral, sem rasgos nem promessas de sol. «Ao menos, torna mais fácil a subida ao mastro.», pensei. O capitão Jackdaw tinha ficado a bordo, à espera do mecânico para verificar os instrumentos; ele estava particularmente incomodado com as leituras imprecisas do anemómetro, que insistia em contrariar a intuição de quem passou vários anos a coreografar a dança das velas.

Quando regressei, com os sacos a libertarem um aroma quase visível a olho nu a gengibre e laranja, o sol começava a derramar timidamente um calor que se refletia por entre os barcos da marina. Encontrei o capitão sentado no convés a olhar para uma caneca entre as mãos como se estivesse a tentar ler augúrios nos reflexos da superfície do café.

«Tivemos uma surpresa.», disse, olhando-me de lado com aquele meio-sorriso que reservava para os avisos à navegação.

Contou-me então que, ao subir ao mastro, tinha encontrado algo enredado no anemómetro: um pequeno talismã, preso com uma tira de couro desgastado. O mecânico local — pelo que percebi, um homem de bíceps expandidos prontos para receber ainda mais tatuagens navais — terá feito uma careta de repulsão, assentando desconfiado que aquilo era um objeto de magia e que o melhor era atirá-lo ao mar ou jogá-lo no lixo.

«Respondi-lhe que, o que quer que fosse, tinha sido deixado para nós. Ou para o barco.», disse-me o capitão, pousando o copo. Levou a mão a um bolso interior do casaco. «Guardei-o não por superstição, mas… por respeito.»

Abriu as mãos com as palmas viradas para cima como se segurasse algo frágil. Era um artefacto semelhante aos que tinha visto em casa da Rita Joe, feito de penas, conchas, e pequenos entalhes de osso polido, tingido com pigmentos de cor ferrugem e verde-mar. Debrucei-me para o observar e pareceu-me ouvir algo a ecoar das mãos do capitão e creio que ele terá também escutado algo porque também se debruçou sobre o objeto.

Nesse instante, sentimos passos no pontão. Virámo-nos ao mesmo tempo. Aproximava-se um homem alto, com um porte sereno e uma expressão séria. O seu traje era difícil de identificar: um tecido escuro, que parecia algum tipo de cabedal, bordado com símbolos circulares, franjas nas mangas e um colar feito de pedras e dentes de animal, embora sem nenhum emblema de tribo. O cabelo caía-lhe liso sobre os ombros como um manto, seguro por pequenas contas e penas. Parou a alguns metros do Nómada e levantou a mão num gesto de saudação. O capitão desceu para o pontão com a lentidão medida de quem reconhece algo inevitável.

«Boa tarde», disse o estranho, com um sotaque neutro, quase cerimonial. «Vim por causa do talismã.»

O capitão não respondeu de imediato. Eu fiquei a observar da amura, tensa.

«Quem é você?», perguntou finalmente o capitão.

O homem sorriu. «Quem sou não importa. Sou apenas um portador. O talismã foi deixado para si. Não como aviso, mas como convite.»

«Convite para quê?»

«Para levar-me a St. John’s. E depois… continuar. Até ao norte. Até aos Inuit.»

O capitão franziu o sobrolho. «Há alguma razão para fazermos essa viagem?»

«O símbolo no talismã é antigo — mais antigo do que este porto, mais antigo do que este país. Representa transição e vigilância. Quem o deixou sabia que o seu barco cruzaria estas águas. O Norte guarda uma resposta que lhe pertence.»

Houve um silêncio estranho entre eles. O capitão não era homem de se curvar à mitologia — mas também nunca a desdenhava por completo. Eu sabia que, no fundo, ele ouvia com atenção, mesmo quando parecia descrente.

«Pode vir a bordo», disse então. «Há lugar para mais um.»

O homem abanou a cabeça lentamente, num gesto de agradecimento. «Mais tarde, se não se importar. Esta noite, vou encontrar-me com os espíritos. Preciso de ouvir o que têm para me dizer. Não se preocupe, não atrasarei a vossa partida, estarei aqui ao nascer do sol.»

«E como devo tratá-lo?», perguntou o Capitão.

O homem sorriu outra vez. «Na minha terra, chamam-me “Um que anda”. Um viajante.» Fez uma pausa, como se ponderasse uma explicação. «O melhor é chamar-me “Duas Pernas”. É mais… nativo», riu-se.

Depois virou costas e afastou-se com passos silenciosos que quase não perturbavam as tábuas do pontão. A sua figura desapareceu lentamente entre as sombras dos mastros, dissolvendo-se de um modo que até parecia ter sido uma aparição.

O capitão subiu novamente para bordo, sem dizer nada. Pegou no talismã, ergue-o à altura dos olhos, deixando-o alinhar-se por si próprio, e pendurou-o junto à bússola. Permaneceu ali por um momento, como se procurassem uma direção nos pontos cardeiais.

«Amanhã partimos, então?», perguntei.

«Hum?», virou-se para mim.

Repeti a questão.

«Amanhã ao nascer do sol. Para St. John’s. E depois… logo vemos.»

Não lhe perguntei mais nada. Sabia que, naquele instante, o capitão estava noutra rota; às vezes, há instrumentos que não mentem. Só que não são feitos de metal, mas de silêncios.

No dia seguinte, acordei antes da luz matinal. O Nómada dormia, balouçando-se suavemente no berço salgado da marina de Sydney, sob um céu ainda pintado a carvão que começava a perder a força do tom nas margens do horizonte. Pus água ao lume, vesti uma camisola de lã que mantinha sempre à mão para os instantes liminares do dia, e saí da galera com uma caneca de café que começou a fumegar mal subi ao convés.

Foi então que o vi.

Sentado no pontão, imóvel como uma escultura viva, o viajante esperava. As pernas cruzadas em posição tradicional, as mãos pousadas nos joelhos, os olhos semicerrados voltados para a linha onde o céu e o mar ainda não se distinguiam. Havia uma calma nele que fazia parecer que já ali estava há horas.

O capitão surgiu pouco depois, com os olhos semicerrados e o cabelo revolto. Trocámos poucas palavras. O capitão desceu ao pontão e regressou a bordo com o Duas Pernas sem uma sílaba dizerem uma sílaba, o nosso convidado com uma reverência quase impercetível ao tocar o convés com os pés descalços. Zarpámos assim — em silêncio. As velas recolheram a luz ainda tímida do sol como se quisessem dissipar o frio que as envolvera, enroladas durante a noite. Na primeira hora de navegação, ninguém falou. O vento soprava suave, vindo do noroeste, e o motor, agora calado, tinha cedido lugar ao sussurro das ondas.

O capitão tentou, uma vez, arrancar-lhe alguma explicação sobre o talismã.

«É agora que me diz o que significa?»

O viajante, sentado na proa, sem se virar, respondeu apenas: «Saberá antes de chegar a St. John’s.»

Seguiu-se de novo o silêncio, mas um silêncio povoado. Duas Pernas começou a entoar um canto quase inaudível, algo entre um murmúrio e uma oração. Não tinha melodia regular; seguia um compasso que parecia responder ao mar mais do que a qualquer métrica humana. Às vezes, interrompia-se e erguia o peito de rosto para o sol como se o recebesse diretamente nos pulmões.

Ao início da tarde, colocámos o Nómada em piloto automático e partilhámos um almoço simples: sopa de lentilhas, pão de centeio e chá fumado. Sentado no convés, o viajante aceitou tudo com uma cortesia discreta como se cada gesto fosse um rito.

Foi o capitão quem iniciou a conversa.

«O que é que canta quando está ali à proa? São temas antigos? Rituais?»

Duas Pernas sorriu ligeiramente. «Não são canções fixas. São lembranças. Fragmentos que os meus antepassados me deixaram. Às vezes, junto-lhes algo novo. Como uma conversa com o tempo.»

«Então são… improvisadas?», perguntei.

«Sim, mas improviso com raízes. Cada som é um fio de memória. Há quem ache que a tradição da música define a identidade de um povo. Eu acho que é o contrário. A identidade constrói-se como a música: por escalas, por ecos, por contratempos.»

A sua voz tinha a cadência lenta de quem já não distingue entre explicar e cantar.

«Lembra-me o que diz Paul Gilroy, em The Black Atlantic», arrisquei. «Que a música das diásporas negras é uma forma de navegar identidades que não se fixam em territórios, mas em movimentos.»

O viajante acenou em concordância. «O som — o tambor, a voz, o sopro — é uma forma de ancestralidade em trânsito. Não é património, é prática.». Fez uma pausa. «Tal como atravessar o mar é uma forma de pensamento.», apontou, fixando o olhar no capitão, como se estivesse a ler as suas reações.

O capitão esfregou o queixo, cético, mas atento. «E onde fica a tradição? Se tudo muda, o que sobra?»

«Sobra o gesto de escutar», respondeu Duas Pernas. «O mais importante não é repetir a mesma canção, mas escutar o que ela nos pede hoje. Como disse Stuart Hall: não somos quem fomos, mas o que continuamos a tentar ser. A identidade não é uma essência — é uma performance em contínuo ensaio.» Fixou o horizonte por uns instantes, depois baixou o olhar para as mãos, como se observasse nelas marcas do tempo. «Para aqueles que vivem nas margens, a identidade é moldada pelo discurso e pelo reconhecimento social. A identidade passa a ser uma resistência cultural que as estrutura de poder sentem como um desafio, uma ameaça até.»

Mastigámos em silêncio durante alguns minutos. As ondas batendo suavemente no casco davam ritmo à digestão das palavras.

«E os músicos indígenas que misturam rap, eletrónica, spoken word?», perguntei. «Como se encaixam nessa lógica?»

«Eles são os novos xamãs. Como diria Homi Bhabha, a cultura vive na hibridez — naquilo que não é, nem uma coisa nem outra, mas o entremeio. Eles não estão a corromper a tradição. Estão a expandi-la. Como as raízes de uma árvore que, ao crescer, encontram novas formas de abraçar a terra.»

O capitão inclinou-se para trás, com um suspiro, e espreguiçou-se como quem desentorpece o corpo para regressar ao trabalho. «E há quem ache que um motor fora de bordo já é demasiado moderno.», gracejou.

Riu-se, contagiando-nos a todos com a leveza inesperada da observação.

Cada um retomou o seu posto. O capitão ao leme, eu no poço do convés, a afinar ocasionalmente as velas, o viajante na proa a desafiar as sereias com cânticos. Nem dei pelo tempo passar. Só me apercebi quando o sol começou a declinar lentamente, com a demora daquelas ocasiões em que o astro-rei fica a apreciar até mais tarde os dias agradáveis de verão. O céu tingiu-se de um laranja profundo e as sombras no convés esticaram-se. O viajante levantou-se, movimentou as pernas como se fosse dançar com os últimos raios do dia, envolveu-se no manto escuro sobre o qual se tinha sentado, e estendeu os braços, absorvendo o calor do sol poente com a solenidade de um rito solar. Depois sentou-se, enrodilhado como uma concha, e permaneceu imóvel.

Fiquei a observá-lo por longos minutos. Naquela postura, havia uma espécie de pacto entre o corpo e o sol. Ele não era apenas passageiro — era sintonia. Afinava-se com a luz e com o barco, como um guia habituado a abrir caminho para outros. E então senti uma música que vem do outro lado da pele, um calor que não é do sol, mas da memória. O prenúncio de um canto interior que ainda não se tornou voz.

https://www.facebook.com/p/Eastern-Eagle-100036470209811/

Cânticos jovens ancestrais

Muitos jovens recebem os saberes tradicionais mantendo o eco das batidas de tambor e das vozes em uníssono mostra como a música é também uma forma de transmissão de saberes e de ligação intergeracional.

scalar.usc.eduworksborderlands-projectsun-dance

A Dança do Sol

Esta é uma cerimónia sagrada praticada por várias nações indígenas das planícies, tanto no Canadá como nos EUA. Tradicionalmente realizada no verão, reúne diferentes comunidades em torno de um espaço cerimonial onde se ergue um poste central, símbolo da ligação entre o mundo humano e o espiritual.

https://folkways.si.edu/sons-of-membertou/wapnakik-the-people-of-the-dawn

Hibridez identitária

Tal como para os europeus vindos da Escócia e da Irlanda, a sua música estabelece uma identidade com ecos vindos do outro lado do Atlântico, afirmando a sua identidade, para as Primeiras Nações os ecos vem do outro lado do tempo e são uma forma de resistência à perda de identidade.

Excluindo as imagens criadas pelo autor deste blog, as imagens utilizadas neste post têm as seguintes lincenças:

Eastern Eagle: https://www.facebook.com/p/Eastern-Eagle-100036470209811/

Dança do Sol: ​scalar.usc.eduworksborderlands-projectsun-dance

Sons of Membertou: ​https://folkways.si.edu/sons-of-membertou/wapnakik-the-people-of-the-dawn

Termos e Condições